sábado, 6 de março de 2010

é sobretudo o silêncio


O silêncio de quando as portas do cinema se abrem e piscamos os olhos, de forma a nos ajustarmos, de novo, a realidade. E depois o silêncio. O silêncio de regresso a nós. Dobro a roupa do dia, a que não está, ainda, suja. As janelas já estão fechadas mas posso perceber os cães a ladrarem. Oh, o silêncio. E na cozinha alguém abre uma garrafa. Alguém que acabe com o silêncio. A chave é não pensar, continuar, não perceber que o cinema já fechou, que aquela história já não é mais a minha. Perceber o silêncio. Afinal de contas podia apenas clicar no play da aparelhagem.

É sobretudo o silêncio. Silêncio de quando passamos tempo demais rodeados de sons e das suas ausências (fazem mais barulho do que tudo o resto), e depois o ecrã fica preto e tudo o que resta é o silêncio, um enorme, silêncio. É também um pouco do olhar em volta e, bolas, perceber que já não estou a viver a vida dos outros. Perceber que as prateleiras do quarto não estão magnificamente decoradas, numa tentativa vã de fazer parecer normal. Perceber que as janelas estão fechadas e que só o meu conhecimento do lugar me impede de tropeçar.

Quem me dera cair, quem me dera não conhecer nada disto. Quem me dera parar e não ouvir nada, nem silêncio.

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